
O perigo do legalismo
ARTIGO
5/10/202610 min ler
O que é legalismo?
A palavra “legalismo” vem da palavra “legal”, ligada à ideia de lei. A origem mais distante está no latim lex / legis, que significa “lei”.
O cristão deve amar a lei. Apesar do legalismo ser algo negativo, não devemos tratar a lei de Deus como algo negativo também. E aqui estou me referindo não só à lei do Antigo Testamento, mas a todos os mandamentos, princípios e diretrizes do Senhor para nós, encontrados na Bíblia. Portanto, a lei é algo bom, pois é Deus falando conosco. Além de ser algo que nos mostra o pecado e nossa incapacidade de nos salvar por nós mesmos, o salmista tinha prazer na lei porque enxergava nela a sabedoria de Deus. No Salmo 119 ele fala da lei com amor, porque ela orienta, corrige, protege e aproxima da verdade. Quem ama a Deus naturalmente começa a amar aquilo que vem dEle. Quando olhamos pro Novo Testamento, vemos que Paulo diz que “a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom”.
Mas o ser humano com a sua pecaminosidade tende a a partir de algo bom transformar em algo ruim, e foi assim que nasceu o legalismo
A palavra legalismo parece dar a ideia de uma vida seguindo a lei, ou uma vida baseada na lei. O que há de princípio não tem uma conotação tão ruim, mas o legalismo pode ser definido como a observância da lei, que é a base da nossa aceitação em Deus. Essa lei seria a lei bíblica, mas essa relação de seguida regrada pela lei muitas vezes se expande na vida dos legalistas. E a vida se torna baseada também nos dogmas, rituais religiosos, tradições humanas, que muitas vezes nem são tradições bíblicas. O legalismo é quando a pessoa transforma a vida cristã em uma lista de regras, como se obedecer a certas práticas fosse o que garantisse o amor de Deus ou a salvação. Mesmo tendo essa convicção de que somos salvos pela graça.
Romanos 6:14:
“Porque não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.”
Efésios 2:8-9
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.”
Gálatas 2:16
“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo.”
Vamos buscar entender primeiro a relação do cristão com a Lei, à luz da Palavra de Deus. Essa relação pode parecer até ambígua, porque a Bíblia fala da Lei de maneiras diferentes dependendo do contexto. Como vimos mais acima, em alguns textos ela é chamada de santa, justa e boa; em outros, Paulo afirma que não estamos “debaixo da lei”. A questão é compreender de qual aspecto da Lei cada texto está tratando.
A Lei foi dada em outro momento da história da revelação, no Antigo Testamento. Naquele período, o povo vivia sob a Antiga Aliança, com mandamentos civis, cerimoniais e morais, além de sacrifícios, sacerdócio e templo. Ela servia para separar Israel das outras nações e revelar o padrão santo de Deus. Seu propósito era ser obedecido. Hoje vivemos no período da graça. O povo de Deus é a Igreja, mas isso não significa que a Lei tenha se tornado má ou inútil. Pelo contrário: a Lei continua sendo boa, porque vem de Deus. O que mudou foi a forma como o povo de Deus se relaciona com ela. Algumas leis específicas da Antiga Aliança não se aplicam diretamente a nós hoje, especialmente as cerimoniais e civis ligadas a Israel. Ainda assim, os princípios morais de Deus permanecem revelando Sua vontade e Seu caráter.Além disso, a Lei possui outro propósito importante revelado nas Escrituras: mostrar o pecado. Ela expõe o padrão perfeito de santidade de Deus e revela a incapacidade do ser humano de alcançar justiça perfeita por esforço próprio. A Lei funciona como um espelho: ela não cura o pecado, mas mostra que o problema existe.Por isso, a Lei conduzia as pessoas até Cristo. Ao perceber sua incapacidade de cumprir perfeitamente os mandamentos, o homem entende sua necessidade de graça, perdão e salvação. O objetivo final da Lei nunca foi prender o homem eternamente a um sistema de regras, mas levá-lo ao Salvador.
O problema do legalismo é que esse desejo de obedecer à lei não vem de uma transformação interior, de um relacionamento com Deus e do agir de sua graça. Mas a vida com Deus se torna algo ritual em vez de relacional, como uma falsa religiosidade. O legalismo nos impede de viver uma vida cristã saudável, e só traz malefícios para o corpo de Cristo
John Piper diz: “O legalismo é mais sutil, mais difundido e, no fim, mais destrutivo que o alcoolismo. Satanás se veste como anjo de luz e usa até os mandamentos de Deus como base de operação.”
Hernandes Dias Lopes diz:“O legalismo é um caldo mortífero que tem oprimido muitas pessoas na sua vida espiritual.”
Quero olhar na Bíblia junto com você algumas características de alguém legalista. E como base vamos usar os fariseus, judeus e mestres da lei. Podemos chamar-los de os maiores legalistas da bíblia. Não porque a Bíblia os chama assim; legalismo não é um termo bíblico, mas porque observamos na vida deles essa vida com Deus baseada nas leis, nos rituais e nos dogmas. E vemos de uma forma bem extrema, como se apegavam à lei da Torá, mas até deixavam de obedecer a mandamentos e princípios bíblicos que têm mais a ver com a questão relacional com Deus e de transformação de coração, como o amor ao próximo e o perdão.
Julgamento.
A mulher pega em adultério — “atacavam o pecado dos outros, mas ignoravam os próprios”
João 8:1-11
Os fariseus trouxeram uma mulher pega em adultério para Jesus. A intenção deles não era restaurar a mulher, mas condená-la e tentar colocar Jesus numa armadilha. Então Jesus responde:“Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra.” Um por um foi indo embora. O ponto aqui não é que o pecado não importa, mas que eles agiam como juízes perfeitos, enquanto também eram pecadores. Eles tinham facilidade em expor o erro alheio, mas dificuldade em olhar para si mesmos.
Tradições acima da Bíblia:
Temos alguns exemplos sobre tradições, pois um dos maiores conflitos entre Jesus e os fariseus era justamente isso: eles passaram a colocar tradições humanas acima da Palavra de Deus. Muitas tradições até começaram com boas intenções, mas com o tempo viraram regras quase “sagradas”, como se tivessem a mesma autoridade que Deus.Jesus confrontava isso porque a religião deles estava ficando mais baseada em costumes humanos do que no coração e na verdade da Escritura
“Vocês anulam a Palavra de Deus pela tradição”
Marcos 7:1-13
Esse é provavelmente o exemplo mais claro.Os fariseus criticaram os discípulos porque eles comiam sem fazer o ritual tradicional de lavagem das mãos. Importante:
Não era questão de higiene;era um ritual religioso criado pela tradição judaica.
Então Jesus responde: “Vocês deixam o mandamento de Deus e se apegam à tradição dos homens.”E depois:“Invalidando a palavra de Deus pela vossa tradição.”Ou seja: Eles davam mais importância ao ritual do que àquilo que Deus realmente havia mandado.
O caso do “Corbã”
Marcos 7:9-13 Jesus dá um exemplo bem pesado. A Lei dizia:honrar pai e mãe; cuidar deles.
Mas existia uma tradição chamada “Corbã”. A pessoa dizia que seus bens estavam “consagrados a Deus”, e usava isso como desculpa para não ajudar os pais.
Na prática:
A tradição virou uma brecha para desobedecer a um mandamento claro. Jesus mostrou que tradições nunca podem cancelar aquilo que Deus já falou. Aparência religiosa acima da transformação real
Mateus 15:8
Jesus cita o profeta Isaías:“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.” A tradição mantinha uma aparência espiritual, mas o coração estava distante de Deus.
O problema não era toda tradição
Nem toda tradição é errada. Existem tradições boas:
cantar hinos;
Reunir a igreja;
ceia;
Formas organizadas de culto.
O problema começa quando:
tradição vira “lei divina”;
Costumes humanos ficam acima da Bíblia;
Quem não segue certos costumes é tratado como menos espiritual;
Regras externas substituem o relacionamento com Deus.
Como isso acontece hoje?
Isso pode acontecer quando pessoas começam a tratar como “pecado” coisas que a Bíblia não condena claramente. É normal a igreja ter suas diretrizes e tradições, mas condenar aqueles que se desviam um pouco dessas tradições em vez de uma orientação bíblica se torna legalismo.
Exemplos comuns:
roupas específicas;
estilos musicais;
costumes culturais;
Regras humanas de santidade;
Formas específicas de culto.
Colocar no outro jugo:
Um dos maiores problemas dos fariseus era colocar sobre as pessoas um jugo pesado, transformando a fé em algo cansativo e sufocante. Jesus falou sobre isso em Mateus 23, quando disse que eles “atavam fardos pesados e difíceis de suportar” sobre os outros, mas eles mesmos não ajudavam nem com um dedo. A religião deles era cheia de regras, cobranças e aparência, fazendo as pessoas viverem com medo constante de errar e nunca se sentirem boas o suficiente diante de Deus.Muitas vezes eles criavam exigências além daquilo que Deus realmente havia mandado. A espiritualidade passava a ser medida por costumes externos, e performance religiosa. Em vez de aproximar as pessoas de Deus, acabavam colocando culpa e peso sobre elas. Era como se a vida com Deus fosse um sistema impossível de alcançar. É um problema quando somos legalistas conosco mesmos e queremos impor isso aos outros, por exemplo, quando nós temos o nosso "padrão de santidade" e, se eu não vir esse padrão no meu irmão, o julgo estar desagradando a Deus.
Insensibilidade espiritual:
Em Marcos 3, Jesus cura um homem da mão ressequida dentro da sinagoga. Antes de curar, Ele olha para os fariseus entristecido pela dureza do coração deles. Eles estavam observando Jesus não para aprender ou se alegrar, mas para acusá-lo. A necessidade de um homem importava menos para eles do que suas interpretações religiosas.
Jesus também falou algo muito forte em Mateus 15:8: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.”
Ou seja, externamente pareciam espirituais, mas internamente estavam distantes de Deus. A religião havia virado costume, aparência e orgulho, sem transformação real do coração.A insensibilidade espiritual também fazia os fariseus julgarem pessoas sem compaixão. Eles viam pecadores apenas como gente a ser condenada, enquanto Jesus enxergava pessoas precisando de arrependimento, cura e salvação. Cristo nunca relativizou o pecado, mas também nunca perdeu a misericórdia pelas pessoas.
Você é legalista?
Essas são apenas algumas características de alguém legalista, e mesmo que possamos não ser de uma forma tão extrema quanto os fariseus, estamos suscetíveis a agir dessa forma também, por nosso coração pecaminoso. Reflita em Deus sobre sua vida e se você se identificou com alguma característica citada acima, busque em Deus a mudança. Continue aprendendo mais sobre esse assunto e sobre a palavra de Deus de forma geral; leia a Bíblia, consuma bons conteúdos cristãos, pois o conhecimento é importante para nós escaparmos do legalismo, pois existe uma cultura legalista muito forte hoje que tende a nos influenciar também. O legalismo nos impede de viver um cristianismo leve, prejudica o nosso relacionamento com Deus, prejudica o corpo de Cristo e também prejudica uma vida de testemunho para com os não crentes. É mais comum nós sermos legalistas do que parece, mesmo que sejamos só um pouquinho legalistas ou, em alguma área específica, uma vida fora do legalismo. Mas é algo a que devemos sempre estar tendo atenção e pedindo para que Deus esteja nos transformando, para que possamos experimentar uma fé saudável.
Quer se aprofundar mais no assunto?
Este tema abordado aqui podem ser estudados com mais profundidade. Por isso, reunimos indicações de livros, cursos e materiais que complementam os conteúdos do site e ajudam no crescimento espiritual e no conhecimento da Palavra de Deus.
Se você deseja investir em seu aprendizado e continuar se desenvolvendo na fé, confira nossas recomendações. Elas foram selecionadas para contribuir com sua edificação e caminhada cristã.
Livro: Legalismo na Igreja: lei que mata graça que vivifica
Este livro propõe uma reflexão sobre a essência do evangelho e as armadilhas do legalismo, que frequentemente permeiam práticas religiosas de forma sutil. O autor analisa o legalismo como uma deturpação da mensagem de Cristo, em que regras e tradições humanas tentam substituir a centralidade da graça divina. Ao retomar as advertências do apóstolo Paulo sobre a liberdade em Cristo, a obra expõe como o legalismo aprisiona, gerando culpa e sufocando a verdadeira fé. Por meio de uma análise das Escrituras, o autor incentiva o leitor a abraçar a graça que liberta, inspirando uma renovação espiritual pautada na misericórdia e no amor de Deus.
Link: https://meli.la/2E41Qgw
Livro: Legalistas em recuperação: Pare de criar muros onde Deus criou pontes
Há muita expectativa sobre os cristãos. Nossas roupas, orações, hábitos e motivações devem estar perfeitos, bem alinhados e passados sem ruga ou vinco. Ao pecar, sentimos que não somos dignos da presença de Deus, que não merecemos o seu amor. Além de nos sentirmos pressionados, pressionamos os nossos irmãos, esperamos que nossas congregações sigam nossos ideais e leis, repreendemos e julgamos quando o padrão que criamos não é alcançado. Há um nome para esse fenômeno legalismo. Mesmo com a melhor das intenções, o legalismo nos leva para longe de Deus. Nós carregamos o mundo nos ombros, lutamos sozinhos, não aceitamos a misericórdia do Salvador que carrega nossos fardos e limpa nossas máculas. Ao tentar ser santo pelas próprias forças, perdemos de vista a graça de Deus, ao perder de vista a graça, não conseguimos compartilhá la com nossos irmãos. Nesta obra, Francine Walsh reflete sobre o legalismo na vida cristã através de textos bíblicos, história da igreja e sua própria experiência de vida. O livro é um convite para nos achegar a Jesus, parar de lutar com as próprias forças e acolher as pessoas com graça e misericórdia.
Link: https://meli.la/2MZY8dk
Livro: Cristianismo leve
O livro que você tem em mãos não é sobre a necessidade de haver menos leveza no cristianismo. É sobre a necessidade de mais. Não é uma crítica ao cristianismo leve. É um chamado a ele. A igreja evangélica brasileira não precisa de mais fardos. Ela precisa da leveza daquele cujo jugo é suave e o fardo, leve. Este livro é fruto da coragem que nasce no amor. – Bruna Santini Um livro que nos conduz de volta à leveza real do evangelho de Jesus. – Rodrigo Bibo Um abraço suave para aqueles que sofrem com o legalismo. – Dani Cadore Um convite à leveza de um evangelho que liberta. – Pr. Lipão Que bom que este livro existe! – Yago Martins Um reencontro com o Cristo que nos chama para descansar. – Tiago Mattes Um bálsamo para os que têm vivido sob um peso que não vem de Cristo. – Aldair Queiroz.
Link: https://meli.la/1xC4ySP